Mercado dos drones: análise cronológica e tendências

Tempo de leitura: 7 minutos

A chegada dos VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados) no mercado de geotecnologia é considerada uma inovação disruptiva. Este termo apareceu pela primeira vez em 1995 em um artigo do Clayton Christensen, professor de Harvard, que se inspirou no conceito de “destruição criativa” criado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter, ainda em 1939. Para explicar os ciclos de negócios, ele menciona que o capitalismo funciona em ciclos, de forma que cada nova revolução (industrial ou tecnológica) destrói a anterior, tomando o seu mercado.

A inovação disruptiva geralmente se apresenta como algo mais simples, mais barato do que o que já existe ou capaz de atender um público que antes não tinha acesso ao mercado. Podemos usar como exemplo, a internet, que proporcionou inovações como Uber, Netflix, WhatsApp, Instagram e outros. Até aqui, você notou alguma semelhança com a história dos drones?

No cenário internacional, a ascensão dos drones no mercado de geotecnologias ocorreu em 2012, ano em que a Trimble, uma das maiores empresas do mercado de geotecnologias com forte atuação no mercado de fotogrametria, resolveu apostar suas fichas no segmento, comprando a startup belga Gatewing, sinalizando, assim que esta tecnologia seria promissora.

Já no Brasil, isso ocorreu em 2013, ano em que eu tive o meu primeiro contato com os VANTs. Na ocasião, fui contrato por uma empresa em São Paulo que foi uma das pioneiras a apostar no uso dos VANTs no mercado das geotecnologias. Minha função era fazer a ponte entre a fabricante e o mercado de geotecnologias, realizando pesquisas técnicas e testando se os produtos gerados pelos VANTs se aproximavam da fotogrametria tripulada.

Nesta época o desafio era a validação dos produtos gerados pelos drones. Não havia softwares específicos para o processamento dos dados e os que eram utilizados na fotogrametria tripulada não eram capazes de processar os dados provenientes dos VANTs, devido a grande variação angular nas tomadas de fotos ocasionadas pelos ventos. Na universidade aprendemos que o ângulo de cambagem (nome dado a esta variação angular) deveria ser no máximo 3°. Este fato era um dos principais motivos da descrença do mercado de fotogrametria em relação aos VANTs.

Na feira MundoGEO#Connect 2013, realizada pelo portal MundoGEO, eram apenas dois expositores, sendo um deles da organização que eu trabalhava, ouvi de muitas pessoas que não era possível realizar fotogrametria com VANT, notava-se um forte traço de pessimismo, característica clara do mercado brasileiro, que em vez de testar a funcionalidade e depois opinar, primeiro se convence de que não funciona e apenas depois de comprovada a eficiência no cenário internacional, começa a se movimentar.

Com o avanço da visão computacional surgiram novos algoritmos de processamento, como o SIFT (Scale Invariant Feature Transform ou Transformação de Feições Invariantes à Escala) que foram capazes de processar os dados provenientes dos VANTs. A chegada deste algoritmo no mercado foi protagonizada pelo software russo Agisoft PhotoScan, que já era utilizado para modelagens 3D e, com o crescimento do mercado dos VANTs foi adaptado para processamento de imagens aéreas.

Na época, o PhotoScan não fornecia o relatório da aerotriangulação para compararmos os resultados finais gerados, nós fizemos uma conexão entre o PhotoScan e o Inpho (software de processamento to de dados da Trimble muito famoso no mercado de fotogrametria) e os resultados finais foram surpreendentes: conseguimos alcançar praticamente a mesma precisão posicional de um levantamento feito com aeronaves tripuladas.

“Este era um indicador claro e mais seguro de que esta tecnologia veio para ficar.”

O ano de 2014 foi marcado pela estruturação do mercado. Em contato direto com este público, comecei a notar que a procura crescia exponencialmente. Neste ano, a Trimble lançou o UAS Master, com base no estado da arte do seu clássico software Inpho a empresa lançou a sua versão para o processamento de dados provenientes dos VANTs. Neste mesmo mês outra empresa gigante do mercado de geotecnologias também entrou no jogo, a Hexagon anunciou a compra da Aibotix, uma startup alemã fabricante de modelos multirotores. Na feira MundoGEO#Connect 2014, o cenário já era outro.

O mercado se mostrava mais maduro: enquanto em 2013 eu tinha que explicar o que eram os VANTs e o que eles faziam, em 2014 os participantes já conheciam os potenciais da técnica e pesquisavam aplicações no seu segmento. O evento contou com diversos expositores, sem contar nos inúmeros veículos de comunicação que estavam no evento em busca de mais informações sobre essa tecnologia revolucionária. Em constante contato com o mercado, notei uma demanda crescente por prestação de serviços, ao contrário do que estava convencionado, no caso, a compra do sistema completo. Como na época a empresa em que eu trabalhava não teve interesse em trabalhar com serviços, resolvi apostar no segmento.

Me considero um empreendedor nato, sou filho e neto de empreendedores, na universidade fiz parte durante três anos da EJECart (Empresa Júnior de Engenharia Cartográfica), portanto, já tinha em mente o objetivo de abrir minha própria empresa. Fruto de um sonho aliado com uma oportunidade de mercado surgiu a Droneng, uma startup de mapeamento aéreo com drones e desenvolvimento de soluções de geotecnologias. A Droneng surgiu com o propósito de inovar não somente na tecnologia, mas também em sua gestão, motivada pela estrutura horizontal, nós damos voz aos nossos colaboradores e acreditamos que a convergência dessas ideias trilham o caminho que devemos seguir. Seguindo a linha do tempo, considero 2015 o ano dos VANTs.

Nunca se falou tanto destes robôs voadores! Com a tecnologia consolidada e as aplicações validadas, este ano foi marcado pela adesão do mercado, onde empresas referências em seus segmentos como a Tecnisa, AES Tietê, Eldorado, Raízen, Guaraní e diversas outras começaram a utilizar os drones em seus negócios. O setor da agricultura confirmou o estudo da AUVSI (Associação Internacional de Sistemas de Veículos Não Tripulados) realizado em 2013, sobre o impacto dos VANTs na economia americana, atestando que a agronomia representaria 80% dos 13,2 bilhões de dólares previstos até 2025. No Brasil é notável a adesão deste setor, que assim como o GPS aposta nos drones como sendo a próxima revolução tecnológica do mercado.

A Droneng tem como foco o mercado da agricultura com ênfase na cana-de-açúcar, onde estamos desenvolvendo sistemas automatizados para uma gestão estratégica do plantio através da base cartográfica gerada pelos VANTs. Nós geramos soluções como levantamento de falhas no plantio, mapeamento das linhas da plantação e mapa de saúde da vegetação. Nosso objetivo é melhorar as decisões estratégicas dos nossos clientes através de mapas digitais inteligentes.

Acredito que 2016 será marcado por um crescimento ainda maior do mercado nacional. O projeto do uso de VANTs na segurança das olimpíadas, por exemplo, já indica que a regulamentação deverá ser consolidada. Outro indicador foi o anúncio do Conselho Monetário Nacional (CMN) que partir deste ano os bancos fiscalizarão operações de crédito rural através de imagens de satélites ou de VANT.

No mercado de geotecnologias a fotogrametria será popularizada, gerando uma demanda para “cartografia rápida” e soluções geográficas com foco em problemas reais dos clientes. A tecnologia tem surpreendido a cada ano: os modelos no mercado estão cada vez mais robustos, a autonomia de voo vem crescendo, aliada com a capacidade de payload. Isto irá proporcionar um crescimento na demanda por outros sensores embarcados a bordo dos VANTs, como laser, câmera multispectral e hiperspectral, proporcionando um crescimento ainda maior para a demanda de novas aplicações.

Como este mercado apresenta um crescimento acelerado, fica complicado estimar o que vem pela frente, mas tudo indica que teremos novos modelos de aeronaves, novos sensores embarcados e com isso novas soluções e aplicações. O futuro para esta tecnologia é promissor e instigante. Mal posso esperar pelos próximos anos! Assim, a proposta da ANAC atende aos anseios dos profissionais e é um bom começo pois possibilita o trabalho legal de muitos operadores.

Matéria Publicada na Revista DroneShow News – Edição 1 – Ano 1 – Novembro & Dezembro

processamento de imagens de drones

 

4 Comentários


  1. Muito pertinentes e esclarecedores seu artigo Manoel.
    Nossa empresa começou os trabalhos em outubro e já fechamos o ano no verde. Agora adquirimos outros 3 drones.
    O mercado está e continuará muito aquecido nos próximos anos.
    Abraços.

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    1. Boa Noite Manoel, ainda está disponível esse curso online?
      Pois estou muito interessado em faze-lo.

      Aguardo retorno.
      Att;
      Fernando

      Responder

      1. Boa noite Fernando, tudo bem?

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        Da uma olhada em nossos cursos disponíveis: http://droneng.com.br/cursos-online

        Te mandei um e-mail com mais informações,

        Obrigado pelo contato,

        Forte abraço!

        Responder

  2. Ótimo artigo. A sua analise é muito interessante, já que mostra as vantagens e problemas da chegada dos drones. As possibilidades dos sistemas de visão computacional, dos algoritmos de processamento e as câmaras multiespectrais são quase infinitas. Para a segurança, para a luta contra o crime, os incêndios, as pragas, na agricultura, na indústria, nas ciências humanas e puras… O âmbito é muito, muito largo. No Brasil as vantagens são imensas sobre tudo levando em conta os investimentos, pequenos proporcionalmente. Agora, vamos ver si os poderes públicos, as empresas e os empreendedores aproveitam as oportunidades. Tomara que o façam.

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