O uso de drones em desastres ambientais

Tempo de leitura: 10 minutos

Autor: MSC. PAULO RODRIGO SIMÕES. Graduado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e Espeleólogo membro da Sociedade Excursionista e Espeleológica – SEE/UFOP e Analista Ambiental.
Iniciou sua atuação nas Geotecnologias junto à Fundação Museu do Homem Americano – FUMDHAM em São Raimundo Nonato – PI. Mestre em Geociências pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP com foco em Sensoriamento Remoto e SIG. Atualmente é Diretor da Rolling Drone Geotecnologias, startup sediada em Araxá – MG,atuando nas áreas de Meio Ambiente, Recursos Minerais, Patrimônio Cultural, Empreendimentos Imobiliários e Agrícolas.

INTRODUÇÃO

Em tempos de um mundo conectado, notícias de desastres ambientais são, hoje em dia, reportadas em tempo real através de diversos veículos de comunicação, em especial a Internet e TV.

Desastres como terremotos, tsunamis, vulcanismos, enchentes, deslizamentos de terra, têm feito muitas vítimas ao redor de um mundo cada vez mais populoso. Outros eventos naturais parecem ter estreita relação com as alterações climáticas e se referem inundações, tempestades, estiagens, queimadas, aumento de temperatura e degelo.

Tais eventos têm gerado graves consequências socioeconômicas, ambientais e sanitárias para as populações atingidas, com destaque para as áreas susceptíveis aos seus efeitos diretos, a exemplo das zonas litorâneas, áreas próximas de recursos hídricos, terrenos íngremes, áreas vulcânicas ou sujeitas a sismos.

Além dos desastres ambientais de caráter natural, há situações em que estruturas construtivas sofrem diretamente os efeitos destes, como no caso do vazamento de material radioativo de uma usina nuclear em Fukushima, em função de danos estruturais em reatores causados por abalos sísmicos, ocorrido em 2011.

Desastres ambientais não são causados, necessariamente, apenas por fenômenos naturais ou climáticos, mas por outros fatores como erros de dimensionamento em projetos de engenharia, qualidade de matéria prima, falta de monitoramento de processos ou estruturas, negligência, imperícia, inobservância de protocolos, redução de custos, entre outros. Nesta categoria podemos citar o derramamento de óleo no Golfo do México em 2010 ou, mais recentemente, o rompimento de barragens de rejeito em Itabirito e Mariana, Minas Gerais.

Em outras situações, desastres são provocados intencionalmente, como a destruição de poços de petróleo iraquianos em retaliação à política intervencionista norte americana por ocasião da Guerra do Golfo. No Brasil, incêndios florestais criminosos têm afetado grandes extensões de terra, incluindo áreas de preservação ambiental.

Considerando que os desastres ambientais naturais são, geralmente, imprevisíveis e muitas vezes de alta magnitude, é imperativo o atendimento rápido às vítimas, nem sempre possível devido às destruição de infraestrutura de acesso, condições climáticas ou pela instabilidade de áreas afetadas.

USOS DE DRONES EM DESASTRES AMBIENTAIS

Pouco utilizados para o registro dos estragos do terremoto do Haiti em 2010 e mesmo para o tufão nas Filipinas em 2013, os drones foram utilizados intensamente no Nepal como em nenhum outro desastre até então.

Logo após o terremoto do Nepal em 2015, drones foram utilizados por uma ONG inglesa e pelo UAViators[1] no mapeamento das áreas afetadas, avaliando os danos e auxiliando na busca de pessoas desaparecidas. Muitos repórteres também utilizaram drones para o registro dos danos. Em poucos minutos, os drones estavam cobrindo áreas em que se gastaria horas com deslocamentos em solo. No entanto seu uso deixou de ser livre a passou a depender de permissão e regulamentações da Autoridade de Aviação Nepalesa (CAAN).

drones em desastres ambientais

Figura 1: População local os mapas de Panga, Nepal, feitos com o uso de drones (Patrick Meier/UAViators). Fonte: https://www.washingtonpost.com/news/innovations/wp/2015/10/07/in-nepal-a-model-for-using-drones-for-humanitarianism-emerges/

No rompimento da barragem de rejeitos da mineradora de ferro SAMARCO S/A no distrito de Bento Rodrigues, Mariana – MG em novembro de 2015, drones também foram usados e registraram o maior acidente ambiental do Brasil. Mais do que o registro, drones foram utilizados como apoio às equipes de resgate e no monitoramento de estruturas. Com seu uso foi possível registrar uma trinca de três metros na parede de uma segunda barragem pela equipe do Corpo de Bombeiros. Já a SAMARCO informou que utilizava drones, radares e piezômetros para o monitoramento diário das barragens remanescentes.

Bento Rodrigues foi intensamente imageado após o acidente, por satélites[2], helicópteros e drones [3] com o propósito de se registrar e noticiar a tragédia e de se preservar a memória. Com as imagens de satélite foi possível ter uma melhor dimensão do desastre. Helicópteros e drones auxiliaram nas atividades de busca e resgate. O uso de drones foi primordial em função da dificuldade de locomoção em meio à lama, servindo como uma extensão da visão dos socorristas.

Após quatro meses da tragédia tive a chance de retornar a Bento Rodrigues depois de vários anos. E talvez por isso o cenário se mostrou ainda mais desolador. O convite partiu de uma equipe de filmagem de um documentário [4] sobre o desastre e o objetivo era registrar o estado atual do distrito através de fotos e vídeos com o uso de drone para um making off. Tais produtos estão sendo disponibilizados também na Web.

Mesmo com restrições de tempo de visita, foram feitas além das filmagens e fotos, modelos 3D, uma ortofotos, fotos panorâmicas, MDS e curvas de nível. Foi realizado o estudo prévio da área no Google Earth e os planos de vôo para a ortofoto e modelos 3D foram definidos no local, com 60m de altura para a ortofoto, 100m para as filmagens e 15 m para os modelos 3D das casas em ruínas. Filmagens e fotos foram feitas em modos de pilotagem autônoma e manual.

Esta breve experiência permitiu avaliar muito positivamente a eficácia dos aerolevantamentos com drone em situações dessa natureza.

drones em desastres ambientais
Figura 2: Modelo 3D da área da Escola Bento Rodrigues
https://sketchfab.com/models/4a2759b90500415d84a1918c1a1ef637

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Figura 3: Modelo 3D das ruínas de uma casa em Bento Rodrigues.
https://sketchfab.com/models/2a32a7cca3424109a54704e623d6a421

 

drones em desastres ambientais

Figura 4: Foto aérea panorâmica de Bento Rodrigues. Observar a área remanescente (à direita), a área do aporte da lama e da construção do dique de contenção (ao fundo à direita) e a área de escoamento em direção ao rio Doce (ao fundo à esquerda).
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1296176300409582&set=a.1296173350409877.1073741871.100000516732014&type=3&theater

drones em desastres ambientais

Figura 5: Ortofotocarta (3,2 cm/px) da área da Escola Bento Rodrigues em 09/03/2016.
https://www.facebook.com/rollingdrone/photos/a.881860558568414.1073741831.865379673549836/967004713387331/?type=3&theater

 

POSSIBILIDADES DE USO DOS DRONES EM DESASTRES AMBIENTAIS

As experiências descritas acima reafirmam as vantagens do uso de drones em desastres ambientais, sejam estes naturais, antrópicos ou mistos. Seu emprego auxilia o direcionamento de esforços para o auxílio e reconstrução, propiciando imagens em tempo real a um baixo custo.

As imagens aéreas provêm informação vital para autoridades, resgatistas, população, jornalistas, entre outros profissionais. Através delas são realizadas vistorias, monitoramentos, registro de condições em locais de difícil acesso ou impróprios à presença humana em função de radiação, gases, alta temperatura, etc.

Seu emprego contribui para avaliações quantitativas e qualitativas da extensão de desastres, mapeamento de áreas de risco, análise de estruturas colapsadas, imageamento voltado à localização de vítimas, produção de material jornalístico ou de divulgação, identificação de focos de incêndio e avaliação de áreas queimadas, na medição dos níveis de água após inundações e avaliação de danos às propriedades além de procedimentos preventivos como inspeções de grandes estruturas (oleodutos, gasodutos, plataformas de petróleo, linhas de transmissão, estruturas minerárias).

No que se refere à ajuda humanitária, além das atividades de resgate, experiências vêm sendo realizadas no transporte de medicamentos e equipamentos a áreas afetadas e de difícil acesso. Drones foram utilizados para a entrega de amostras de saliva para testes de tuberculose na Papua Nova Guiné e de antibióticos a vilas remostas no Butão.

DISCUSSÕES

Inovações radicais podem provocar uma resistência inicial, uma adaptação gradual e então a eventual assimilação de novas tecnologias pela sociedade. No Brasil, drones parecem estar no início deste terceiro estágio, o que é comprovado pelo sucesso com que vêm sendo empregados em diferentes áreas, tanto quanto pela sua relativa rápida disseminação. Mas isto ainda não é o suficiente para a prevenção e mesmo remediação de desastres ambientais.

Seu emprego, seja pela iniciativa privada, poder público ou por particulares abre diversas possibilidades: contribuição para a avaliação da extensão dos impactos ambientais, apoio ao resgate de vítimas, planejamento de obras estruturantes; avaliação de áreas de risco, entre outros.

Mais do que para o registro de acidentes ambientais, os drones podem ser utilizados para inspeções e monitoramento de estruturas, vindo a contribuir para a diminuição de riscos de acidentes materiais e pessoais, tanto para os trabalhadores envolvidos nas atividades produtivas, quanto às populações do entorno dos empreendimentos.

Em constante evolução técnica, abrem-se novas possibilidades de usos futuros, contribuindo para a prevenção de acidentes, para a diminuição do tempo de resposta a um desastre e a minimização dos efeitos sobre os atingidos.

Localização de vítimas através de imagens térmicas, análise de gases ou outros produtos químicos, medição de radioatividade são possibilidades de curto prazo a serem implementadas. Com um pouco de imaginação poderemos descortinar outras possibilidades para um futuro próximo.

AGRADECIMENTOS

A Rolling Drone Geotecnologias agradece à equipe do documentário “Barragem” da Produtora Imagem Tempo (Cláudia Pessoa – produção, Eduardo Ades – direção, Thiago Oliveira – fotografia e Antonio Carlos Liliu – sonoplastia) e ao GCM Teixeira pelo acompanhamento à área de Bento Rodrigues.

SITES CONSULTADOS

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,imagens-de-drones-indicam-fissuras-em-terceira-barragem,10000002166

http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/familias-relatam-desaparecidos-em-tragedia-com-barragem

https://pt.wikipedia.org/wiki/Acidente_nuclear_de_Fukushima_I

http://scielo.iec.pa.gov.br/scielo.php?pid=S1679-49742010000400009&script=sci_arttext

http://www.flyart.com.br/vants-drones-ao-resgate-ajudando-nos-desastres-naturais/

http://www.folhavitoria.com.br/geral/noticia/2015/11/samarco-admite-pela-primeira-vez-risco-de-novos-desabamentos-de-barragens-em-mariana.html

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Noticias/Pior-vazamento-de-petroleo-completa-cinco-anos/

http://www.huffingtonpost.com/2015/05/07/nepal-earthquake-drones_n_7232764.html

http://www.moviedrone.com.br/blog/inspecao-com-drones-novidade-ja-atrai-mercado-de-seguranca/

http://www.sophimania.pe/tecnologia/gadgets-wearables-e-innovacion/los-drones-pueden-ser-utiles-en-caso-de-desastres/

http://www.theguardian.com/technology/2015/may/06/nepal-moves-to-limit-drone-flights-following-earthquake

https://www.washingtonpost.com/news/innovations/wp/2015/10/07/in-nepal-a-model-for-using-drones-for-humanitarianism-emerges/

[1] Humanitarian UAV Network, uma iniciativa do Qatar Computing Research Institute. Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1Uez75_qmIVMxY35OzqMd_HPzSf-Ey43lJ_mye-kEEpQ/edit

[2] http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/12/interna_gerais,707158/imagens-de-satelite-mostram-bento-rodrigues-antes-e-depois-de-tragedia.shtml

[3]https://www.youtube.com/watchv=wYbI3GfPIXwhttp://mais.uol.com.br/view/jinmcnm98vmk/drone-sobrevoa-bento-rodrigues-mg-e-registra-cenario-de-destruicao-0402CC1C3972D8B15326?types=V&

[4] http://www.imagemtempo.com/projeto/barragem/

Esse conteúdo foi enviado pelo autor através do projeto Blog Colaborativo. 

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